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Como o WhatsApp entrou na eleição de 2026? O caso do Exército do Lula

5 min de leitura

Com 100% das seções apuradas, o TSE deu a Lula (PT) 64.256.232 votos no segundo turno, 51,79% dos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). No mesmo dia, a busca de canais do WhatsApp mostrava o Exército do Lula com 10,8 milhões de seguidores. Dois números enormes, um do lado do outro. Dá vontade de ligar os dois.

A resposta curta: o WhatsApp deu a esse canal um alcance enorme em poucos dias, e isso dá para medir. Que esse alcance tenha decidido a eleição, ninguém consegue provar. Abaixo vão a conta, o que ela mostra, o que ela não mostra e o que uma empresa que vende pelo WhatsApp pode levar daí.

Quem é o Exército do Lula

É um canal do WhatsApp, o recurso em que uma conta publica para muita gente e quem segue só lê e reage. Ele é administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e foi criado para mobilizar apoiadores da reeleição de Lula, segundo o Congresso em Foco. Em 7 de outubro, o BP Money contou que Janones propôs uma missão aos seguidores: cada um traria mais quatro pessoas para o canal e espalharia o material em outras redes e em grupos de WhatsApp.

O canal cresceu assim, na data de cada reportagem:

DataSeguidoresFonte
13 de outubromais de 4 milhõesCongresso em Foco
17 de outubromais de 4,8 milhõesO Povo
21 de outubro7.193.569Congresso em Foco
26 de outubro10,8 milhõesBusca de canais do WhatsApp

O número de 26 de outubro é o que a busca de canais do WhatsApp mostrava naquele dia. A gente ainda não achou reportagem com ele, então vale como foto de tela e não como dado publicado.

No meio do caminho o canal foi parar no TSE. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, mandou suspendê-lo em 11 de outubro, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, e o corregedor o restabeleceu na mesma tarde (Metrópoles). Houve uma segunda suspensão, por falta de registro, e o canal voltou ao ar em 14 de outubro, depois que a campanha de Lula o registrou. Em 16 de outubro o TSE aprovou regras para canais de WhatsApp ligados a campanhas.

A conta do encaminhar

O WhatsApp deixa encaminhar uma mensagem para até cinco conversas por vez. O limite vale desde janeiro de 2019, segundo o blog do WhatsApp, e existe para frear mensagem viral. Em abril de 2020 veio um segundo freio, contou o Tecnoblog: a mensagem marcada como encaminhada com frequência só vai para uma conversa por vez.

Agora a conta, com o canal em 10,8 milhões:

10,8 milhões × 5 conversas = até 54 milhões

Se todo seguidor encaminhasse para cinco pessoas que ainda não viram.

Esse é o teto, e é um teto de papel. Para chegar nele, todo seguidor teria de encaminhar cada atualização para cinco pessoas diferentes, e nenhuma delas poderia já seguir o canal nem ter recebido de outra. Na vida real, só uma parte dos seguidores encaminha, as pessoas se repetem e muita gente não lê. Quanto sobra, a conta não diz.

Ela também erra para o outro lado: cinco conversas podem ser cinco grupos, e um grupo tem centenas de pessoas. Por isso use os 54 milhões só como ordem de grandeza: dezenas de milhões de entregas possíveis, em poucos dias, sem gráfica e sem carro de som.

O que esse número não prova

Seguidor não é eleitor. O próprio Congresso em Foco avisa que o total de inscritos mostra o alcance potencial das publicações e não corresponde necessariamente à quantidade de eleitores ou de votos.

Ler não é votar. Quem segue um canal pode concordar, discordar ou ter entrado só para ver o que era.

Havia canal dos dois lados. A Tropa do Flávio, lançada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), tinha cerca de 1,9 milhão de seguidores em 17 de outubro, segundo O Povo.

Duas datas coladas não fazem uma causa. Lula terminou o primeiro turno atrás e virou no segundo, e o canal cresceu dentro dessa janela. Juntar as duas datas é razoável. Dizer que uma causou a outra exige saber quem leu, quem encaminhou e quem mudou de voto por causa disso, e esses números a conta não tem.

O que o WhatsApp muda

Chamar gente para a rua, pedir voto e organizar apoiador sempre foi política. O que o WhatsApp muda é a velocidade e o custo: uma mensagem sai de uma pessoa e, em horas, está no celular de milhões, sem gráfica, sem carro de som e sem esperar o noticiário da noite.

Canal é rádio. Contato é telefone.

Um canal fala com milhões e não sabe com quem. Pela regra do próprio WhatsApp, seguir um canal não revela o número de quem segue ao administrador. Dá para publicar para todo mundo. Não dá para chamar uma pessoa pelo nome, perguntar o que ela precisa ou saber quem pediu mais informação. É uma rádio. Quer abrir um? Veja como criar um canal no WhatsApp, passo a passo.

Uma empresa que vende pelo WhatsApp precisa do contrário: o contato de quem aceitou conversar. É um telefone. A pessoa pergunta, você responde, e a conversa vira proposta, venda ou atendimento. Rádio dá audiência. Telefone dá venda.

O que levar para a sua operação

1

Alcance sem contato é emprestado

Quem tem canal não tem lista. Se o canal for suspenso, como este foi mais de uma vez em outubro, o público some junto. A base de contatos que aceitaram receber a sua mensagem fica com você, e vale mais que o número de seguidores.

2

Faça um pedido pequeno e concreto

O pedido do canal foi trazer mais quatro pessoas: um número, um verbo, uma tarefa de um minuto. Compare com o “compartilhe com os amigos” que quase toda empresa escreve no fim da mensagem.

3

Conte resposta, não seguidor

Seguidor e visualização medem audiência. O que paga a conta é quem respondeu, pediu proposta e comprou. Num CRM isso aparece no funil, contato por contato.

4

Peça licença antes de falar

O WhatsApp freia o que parece spam: o limite de encaminhamento, o teto de mensagens de marketing por pessoa e o banimento do número. Na API oficial, a Meta exige que a pessoa tenha aceitado receber. Quem dispara sem isso arrisca o número, e o guia de disparo em massa mostra como evitar.

A Nobre Tech não faz campanha eleitoral nem toma lado. Este texto olha para um mecanismo do WhatsApp, com números públicos e as fontes abaixo. Propaganda eleitoral tem regras próprias no TSE, e elas não são analisadas aqui.

Fontes

Consultadas em 26 de outubro de 2026.